Negociação selvagem: Como livro de Trump dos anos 80 ajuda a explicar postura extrema e caótica com o Irã

Negociação selvagem: Como livro de Trump dos anos 80 ajuda a explicar postura extrema e caótica com o Irã
Livro dos anos 1980 volta ao centro do debate político
A escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã em 2026 reacendeu uma discussão curiosa na política internacional: até que ponto a postura agressiva e imprevisível de Donald Trump segue o manual descrito por ele próprio em um livro publicado na década de 1980.
Analistas e comentaristas voltaram a citar “The Art of the Deal”, best-seller de 1987 que narra a trajetória do então empresário do setor imobiliário e apresenta princípios de negociação que, segundo especialistas, ajudam a entender a forma como Trump conduz conflitos diplomáticos.
No livro, Trump defende uma abordagem baseada em pressão máxima, autopromoção e uso deliberado de exageros, algo que ele chama de “hipérbole verdadeira”, uma estratégia de comunicação que mistura fatos com dramatização para ganhar vantagem nas negociações.
Essa lógica — criada originalmente para o mundo dos negócios — passou a ser aplicada à política externa, especialmente no atual embate com o Irã.
Estratégia de pressão máxima e ameaças extremas
Nos últimos dias, a crise entre Washington e Teerã ganhou contornos dramáticos. Trump chegou a emitir ameaças severas contra o regime iraniano caso determinadas exigências não fossem atendidas.
Durante a escalada do conflito, o presidente dos EUA afirmou que poderia destruir infraestrutura estratégica iraniana caso o país não aceitasse condições impostas por Washington. A tensão diminuiu apenas após um acordo temporário mediado por países aliados.
A sequência de acontecimentos — ameaças duras seguidas por negociação — é vista por analistas como um padrão típico da estratégia descrita no livro de Trump.
No manual empresarial, uma das recomendações implícitas é começar qualquer negociação com uma posição extrema, criando pressão psicológica sobre o adversário para forçá-lo a fazer concessões.
A lógica da imprevisibilidade como ferramenta
Outro ponto frequentemente associado ao estilo de Trump é o uso deliberado da imprevisibilidade.
Especialistas em política internacional apontam que o presidente muitas vezes adota discursos ou decisões abruptas que confundem aliados e adversários. Esse comportamento tem sido comparado à chamada “teoria do louco”, uma estratégia geopolítica que tenta convencer o oponente de que o líder pode agir de forma radical ou irracional.
No atual conflito com o Irã, por exemplo, Trump fez ameaças de grande escala e posteriormente aceitou um cessar-fogo mediado internacionalmente pouco antes de um prazo que ele próprio havia imposto.
Para alguns analistas, essa alternância entre escalada e recuo faz parte de uma tática de barganha: criar um cenário de risco extremo para tornar qualquer acordo posterior mais aceitável.
Críticas: estratégia pode gerar perda de credibilidade
Embora defensores da abordagem afirmem que ela pode produzir resultados rápidos, críticos alertam que o método também apresenta riscos.
Especialistas em relações internacionais argumentam que ameaças exageradas ou mudanças bruscas de posição podem reduzir a credibilidade de um país no longo prazo. Quando aliados e adversários percebem um padrão repetitivo de pressão seguido de recuo, o impacto das ameaças pode diminuir.
Além disso, diplomatas temem que a retórica extrema aumente a probabilidade de erros de cálculo em situações de crise — especialmente em regiões já marcadas por conflitos e rivalidades geopolíticas intensas.
Do mercado imobiliário para a diplomacia global
Quando publicou The Art of the Deal, Trump era conhecido principalmente como empresário do setor imobiliário em Nova York. O livro transformou sua imagem pública e se tornou um dos manuais de negócios mais famosos da época, permanecendo por semanas na lista de best-sellers.
A obra apresenta negociações como uma espécie de espetáculo estratégico, no qual imagem pública, pressão psicológica e timing são tão importantes quanto os números envolvidos.
Décadas depois, muitos analistas enxergam na política externa do ex-presidente uma versão ampliada dessa filosofia — aplicada agora a disputas entre Estados e não apenas a contratos imobiliários.
Negociação ou risco calculado?
A questão que divide especialistas hoje é simples, mas profunda: a estratégia de Trump representa um método calculado de negociação ou apenas improviso político?
Para alguns analistas, a abordagem faz sentido dentro de uma lógica de barganha agressiva. Para outros, a mistura de ameaças extremas, mudanças rápidas de posição e comunicação explosiva pode tornar crises internacionais ainda mais perigosas.
Enquanto as negociações com o Irã seguem incertas, uma coisa parece clara: ideias formuladas em um livro empresarial dos anos 1980 continuam influenciando — direta ou indiretamente — algumas das decisões geopolíticas mais delicadas do século XXI.
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